A CONDIÇÃO DA MULHER MOÇAMBICANA E A POLIGAMIA COMO SISTEMA DE OPRESSÃO, EM BALADA DE AMOR AO VENTO, DE PAULINA CHIZIANE
Resumo
A leitura do romance Balada de amor ao vento (1990), de Paulina Chiziane, evidencia que a poligamia é representada como um pilar de manutenção da desigualdade entre homens e mulheres na sociedade moçambicana. A partir da trajetória da protagonista Sarnau, observa-se como ela absorve e sofre as normas patriarcais, aceitando a poligamia como algo natural em nome do amor e dos costumes. A narrativa mostra que essa prática ultrapassa a dimensão cultural e se configura como um mecanismo de controle que fere a liberdade emocional, corporal e econômica das mulheres. Conselhos que reforçam a submissão, a normalização da infidelidade masculina, a exigência de silêncio diante da dor e metáforas que comparam a mulher a objetos de uso evidenciam o caráter violento e desumanizador desse sistema. Dialogando com estudos críticos sobre a condição feminina e a poligamia na literatura moçambicana, o artigo analisa como o romance denuncia a legitimação social da violência e a redução da mulher a propriedade reprodutiva, bem como o impacto psicológico dessa opressão. Conclui-se que Chiziane constrói, por meio da voz de Sarnau, uma intervenção literária que problematiza a naturalização da poligamia e reivindica a emancipação feminina.