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Vol. 17 (2026): Caderno Temático Especial - Programa de Iniciação Científica UGB
A publicação do Caderno Temático Especial do Programa de Iniciação Científica do Centro Universitário Geraldo Di Biase – UGB constitui uma oportunidade de reconhecer uma dimensão fundamental da formação universitária: aprender a investigar.
Mais do que apresentar resultados de estudos desenvolvidos em diferentes áreas do conhecimento, esta edição materializa percursos formativos nos quais estudantes e professores se encontram em torno de perguntas, problemas, métodos e possibilidades de interpretação da realidade. A iniciação científica assume, nessa perspectiva, uma função que ultrapassa a produção de trabalhos acadêmicos. Ela constitui uma experiência de formação intelectual, metodológica e ética, capaz de modificar a relação do estudante com o conhecimento e com a própria universidade.
A pesquisa ensina a formular perguntas antes de procurar respostas. Exige delimitar problemas, confrontar evidências, reconhecer limites, selecionar métodos, interpretar resultados e comunicar aquilo que foi produzido de maneira responsável. Por essa razão, participar de um projeto de iniciação científica significa experimentar, ainda durante a graduação, elementos fundamentais do fazer científico.
Essa perspectiva encontra correspondência nos princípios que orientam institucionalmente os programas de iniciação científica do UGB. No edital do PIC MED 2026, por exemplo, a formação científica dos estudantes aparece articulada à integração entre ensino, pesquisa e extensão, ao fortalecimento de linhas de investigação e ao compromisso social da produção acadêmica. Embora direcionado especificamente ao Curso de Medicina, o documento expressa elementos importantes de uma concepção de pesquisa universitária que valoriza relevância científica, aplicabilidade e aproximação com as demandas da sociedade.
O próprio processo de construção dos projetos evidencia que a iniciação científica pressupõe rigor. A proposta institucional solicita definição de introdução, justificativa, objetivos, materiais e métodos, procedimentos, análise dos dados, cronograma e referências, estabelecendo uma arquitetura metodológica que conduz o estudante à compreensão de que a ciência se constrói por meio de processos sistemáticos e verificáveis.
Mas formar para a pesquisa não significa restringir o estudante às fronteiras da academia.
Ao contrário, uma das dimensões mais significativas da iniciação científica está em sua capacidade de aproximar o conhecimento das questões que atravessam os territórios, as instituições e a vida cotidiana. A própria concepção institucional valoriza a relevância social e científica dos projetos e a possibilidade de transferência de resultados para a sociedade como critérios de qualidade da pesquisa.
Os trabalhos reunidos neste Caderno demonstram precisamente essa diversidade de olhares e possibilidades.
O artigo “A relação criança e linguagem a partir da apropriação de ditados populares” situa a investigação no encontro entre linguagem, cultura e desenvolvimento. Ao observar a maneira pela qual crianças se relacionam com expressões transmitidas socialmente, o estudo evidencia que a linguagem não constitui apenas instrumento de comunicação, mas também espaço de construção de significados, interpretação e pertencimento cultural.
A investigação científica, nesse caso, aproxima-se de um fenômeno presente na experiência cotidiana e revela uma das características mais importantes da pesquisa: transformar aquilo que parece comum em objeto de reflexão sistemática. É exatamente nesse movimento que se desenvolve o olhar investigativo. O pesquisador aprende a estranhar o aparentemente familiar, a formular perguntas sobre práticas naturalizadas e a buscar instrumentos teóricos capazes de compreendê-las.
Essa relação entre conhecimento, memória e sociedade assume outra configuração nos estudos dedicados à arquitetura e à preservação patrimonial.
O artigo “Acervos iconográficos de arquitetura: preservação e difusão de documentos sobre as fazendas do Vale do Paraíba Fluminense” chama atenção para a importância dos documentos arquitetônicos enquanto registros da memória histórica e material de uma região. Preservar esses acervos significa preservar informações sobre modos de ocupação territorial, organização econômica, formas construtivas e relações sociais que participaram da constituição histórica do Vale do Paraíba Fluminense.
O conhecimento produzido pela universidade assume, nesse contexto, também uma função de salvaguarda.
Documentar, organizar, interpretar e difundir acervos transforma a pesquisa em instrumento de preservação cultural e de democratização do acesso à memória. A iniciação científica permite, assim, que estudantes compreendam que investigar o passado não significa permanecer nele, mas criar condições para que diferentes gerações possam interpretar criticamente os processos que constituíram seus territórios.
Essa perspectiva se amplia no trabalho “Estratégias e diretrizes para construção conceitual e material do Centro de Memória Urbana de Volta Redonda”. A cidade torna-se objeto e, simultaneamente, espaço de investigação.
Pensar um centro de memória urbana significa reconhecer que os territórios não são constituídos somente por edificações, vias e equipamentos. As cidades são também formadas pelas experiências das pessoas que nelas vivem, pelas transformações econômicas que atravessaram sua história, pelos conflitos, pelas formas de trabalho, pelas práticas culturais e pelas múltiplas narrativas construídas em torno de seus espaços.
Ao incorporar essas dimensões, a pesquisa universitária aproxima-se da memória coletiva e contribui para fortalecer vínculos de pertencimento entre conhecimento acadêmico, cidade e comunidade.
Em outra direção temática, mas igualmente comprometido com problemas de grande complexidade, o artigo “O Estado moderno e a flexibilização da soberania: análise crítica da governança global e da Responsibility to Protect (R2P) como instrumento consubstanciador para a revisão de conceitos” introduz neste Caderno questões relacionadas às transformações políticas e jurídicas que acompanham as relações internacionais contemporâneas.
Ao problematizar conceitos tradicionalmente estruturantes do Estado moderno, o estudo evidencia outra dimensão essencial da formação científica: a capacidade de trabalhar criticamente com conceitos.
A iniciação científica não forma apenas pesquisadores capazes de coletar dados. Forma sujeitos intelectualmente preparados para examinar pressupostos, confrontar interpretações e compreender que determinadas categorias teóricas também precisam ser revisitadas diante das transformações históricas e sociais.
Essa disposição para questionar, experimentar e produzir novas possibilidades encontra expressão particularmente concreta no artigo “Protótipo de movimentação da mão do braço robótico com controle via Wi-Fi e MediaPipe”.
Aqui, a iniciação científica aproxima-se diretamente da iniciação tecnológica.
A construção de um protótipo demonstra como conhecimentos provenientes de diferentes campos podem convergir para a produção de uma solução técnica. Programação, automação, comunicação sem fio e reconhecimento de movimentos articulam-se em torno de uma experiência na qual a pesquisa ganha materialidade.
Esse tipo de produção está alinhado a uma perspectiva institucional que estimula projetos capazes de gerar protótipos, ferramentas, aplicativos, metodologias, processos inovadores e soluções tecnológicas ou sociais, transformando conhecimento científico em resultados com potencial de aplicação.
A importância dessa concepção reside justamente em demonstrar ao estudante que ciência e inovação não constituem processos separados. Muitas vezes, uma investigação começa com uma pergunta e termina com uma nova ferramenta, uma metodologia, um modelo, uma intervenção ou uma solução que pode ser utilizada em outros contextos.
O trabalho “Avanços em segurança alimentar e nutricional em dois municípios do Sul Fluminense: neófitos x veteranos” aproxima a produção científica de outra dimensão essencial à universidade: a leitura crítica das políticas, práticas e condições sociais presentes no território.
A segurança alimentar e nutricional envolve múltiplos determinantes e demanda análises que articulem gestão, políticas públicas, condições sociais e capacidade institucional. Ao direcionar a investigação para municípios do Sul Fluminense, o estudo reafirma uma característica particularmente relevante da pesquisa desenvolvida em instituições universitárias comprometidas com sua região: a possibilidade de produzir conhecimento a partir do território e, simultaneamente, para ele.
A pesquisa regional possui importância científica justamente porque permite compreender realidades específicas sem perder de vista questões mais amplas. Produzir dados, identificar diferenças, reconhecer avanços e analisar limitações contribui para qualificar decisões e para aproximar a universidade das políticas públicas e das demandas concretas da população.
O artigo “Vozes do cárcere: histórias de mulheres encarceradas” encerra o conjunto de trabalhos desta edição colocando a investigação diante de experiências humanas frequentemente invisibilizadas.
Ao trazer histórias de mulheres privadas de liberdade para o campo da pesquisa, o trabalho amplia a compreensão da própria função social do conhecimento científico. Investigar também significa tornar visíveis sujeitos, experiências e narrativas que nem sempre encontram espaço nos registros institucionais ou nos discursos predominantes.
A escuta, nesse contexto, adquire significado metodológico e ético.
Pesquisar trajetórias de mulheres encarceradas exige reconhecer a complexidade das experiências individuais e das estruturas sociais que atravessam essas trajetórias. A produção científica pode, assim, contribuir para superar leituras simplificadoras e construir compreensões mais qualificadas sobre vulnerabilidade, justiça, gênero, exclusão e direitos.
Quando observados em conjunto, os artigos deste Caderno revelam algo particularmente significativo sobre a iniciação científica no ambiente universitário.
Eles são distintos em seus objetos, referenciais e métodos. Investigam linguagem infantil, patrimônio arquitetônico, memória urbana, soberania, tecnologia, segurança alimentar e experiências de mulheres em situação de encarceramento.
É justamente essa diversidade que confere identidade à publicação.
A transversalidade não significa ausência de especialização. Significa reconhecer que a universidade é constituída por diferentes campos de conhecimento e que todos podem contribuir para compreender dimensões específicas de uma realidade que permanece integrada.
A ciência se desenvolve quando há espaço para perguntas diferentes.
Algumas nascem de uma observação sobre como uma criança interpreta um ditado popular. Outras surgem diante de documentos arquitetônicos que precisam ser preservados. Há perguntas sobre a memória de uma cidade, sobre os limites da soberania estatal, sobre a possibilidade de controlar um braço robótico por meio de reconhecimento de movimentos, sobre políticas de segurança alimentar ou sobre experiências de mulheres privadas de liberdade.
Todas, entretanto, compartilham o mesmo gesto inicial: transformar uma inquietação em problema de pesquisa.
A iniciação científica ocupa justamente o espaço entre essa primeira inquietação e a construção sistemática do conhecimento.
Nesse percurso, a orientação docente possui papel fundamental. Cabe ao professor não apenas apresentar métodos e acompanhar cronogramas, mas introduzir o estudante em uma cultura científica fundada no rigor, na ética, na responsabilidade e na autonomia intelectual progressiva. O próprio Programa atribui ao orientador responsabilidades de acompanhamento sistemático, formação dos estudantes, apresentação dos resultados em eventos científicos e produção de artigo ao término do projeto.
Isso demonstra que um projeto de iniciação científica não se encerra na execução de suas atividades.
Pesquisar implica também comunicar.
Apresentar resultados em jornadas científicas, produzir artigos, compartilhar descobertas, reconhecer limitações e permitir que outros pesquisadores tenham acesso ao conhecimento produzido são partes integrantes da atividade científica.
É nesse movimento que este Caderno Temático Especial adquire significado particular.
Ele não é somente um espaço de publicação. É também uma etapa do processo formativo iniciado nos projetos de pesquisa.
Ao transformar investigações desenvolvidas no âmbito da graduação em artigos científicos acessíveis à comunidade acadêmica, a Revista Episteme Transversalis contribui para completar um importante ciclo da formação científica: perguntar, investigar, analisar, escrever, publicar e compartilhar.
Para os estudantes, publicar representa reconhecer que o conhecimento produzido durante a graduação pode ultrapassar a sala de aula e integrar o debate científico.
Para os professores orientadores, representa a continuidade de uma responsabilidade formativa que associa ensino e produção intelectual.
Para a instituição, representa a consolidação de uma cultura acadêmica na qual pesquisa não é atividade periférica, mas dimensão constitutiva da formação universitária.
E para a sociedade, representa a possibilidade de acessar conhecimentos produzidos a partir de temas que atravessam a cultura, a tecnologia, as políticas públicas, a memória, os direitos e os territórios.
É esse percurso que desejamos valorizar com a publicação deste número.
Mais importante do que formar estudantes que conheçam respostas é contribuir para formar profissionais capazes de formular boas perguntas, avaliar evidências, reconhecer a complexidade dos problemas e produzir conhecimento com responsabilidade.
A iniciação científica oferece uma das experiências mais fecundas para que essa formação aconteça.
Ao publicarmos os trabalhos deste Caderno Temático Especial, celebramos, portanto, não somente os resultados alcançados, mas o processo que os tornou possíveis: a aproximação entre professores e estudantes, a construção de perguntas de pesquisa, o enfrentamento das dificuldades inerentes à investigação e a transformação dessas experiências em produção científica.
Que os artigos aqui reunidos sejam compreendidos também como convite.
Convite a outros estudantes para que se aproximem da pesquisa.
Convite aos docentes para que continuem formando novas gerações de pesquisadores.
Convite à comunidade acadêmica para que reconheça na iniciação científica uma dimensão essencial da universidade.
E convite para que o conhecimento produzido dentro de nossos espaços acadêmicos continue atravessando seus limites, dialogando com os territórios, respondendo a problemas relevantes e contribuindo para a construção de novas possibilidades.
Desejamos a todos uma excelente leitura.
Profª Dra. Elisa Ferreira Silva de Alcântara
Editora-Chefe









