V. 17 N. 2 (2026): Revista Episteme Transversalis

Editorial  Ciência, formação e compromisso social: conhecimentos que atravessam territórios, sujeitos e práticas

 

A publicação do volume 17, número 2, de 2026, da Revista Episteme Transversalis representa mais um movimento de consolidação de um projeto editorial orientado pela interdisciplinaridade, pela pluralidade epistemológica e pelo compromisso com uma ciência capaz de dialogar com questões concretas da sociedade.

Os trabalhos que constituem esta edição expressam, em diferentes campos do conhecimento, uma preocupação comum: compreender fenômenos contemporâneos não apenas em sua dimensão teórica, mas a partir das implicações que produzem sobre os sujeitos, as instituições e os territórios. Educação, saúde, arquitetura, meio ambiente, trabalho, memória, direitos e inclusão social encontram-se, neste número, como dimensões de uma realidade complexa que desafia respostas disciplinares isoladas.

Essa característica traduz, de maneira particularmente significativa, a própria identidade da Revista Episteme Transversalis. A transversalidade que dá nome ao periódico não se limita à reunião de pesquisas provenientes de diferentes áreas. Ela se manifesta sobretudo na possibilidade de construir aproximações entre campos científicos distintos, reconhecendo que os grandes problemas contemporâneos atravessam fronteiras acadêmicas e requerem perspectivas capazes de integrar conhecimento, criticidade e responsabilidade social.

No campo da Educação e Sociedade, os estudos publicados nesta edição colocam em evidência questões centrais para o debate educacional brasileiro: acesso, permanência, formação docente, protagonismo discente e democratização das oportunidades educacionais.

A investigação sobre indicadores de evasão no ensino superior privado apresenta uma problemática que ocupa posição estratégica na gestão acadêmica contemporânea. Compreender a evasão exige ultrapassar sua leitura como dado estatístico e reconhecê-la como fenômeno multidimensional, relacionado a fatores acadêmicos, socioeconômicos, institucionais e individuais. Nesse sentido, a proposição de indicadores constitui contribuição relevante para que instituições possam antecipar situações de vulnerabilidade acadêmica e estruturar políticas de permanência mais consistentes.

Em outro contexto educacional, o Projeto John Não Falta direciona a atenção para a presença escolar no Ensino Fundamental I e evidencia que frequência, pertencimento e aprendizagem são dimensões profundamente articuladas. A permanência na escola não pode ser reduzida à presença física do estudante: implica construir condições para que ele reconheça aquele espaço como lugar legítimo de aprendizagem, convivência e desenvolvimento.

A educação como possibilidade de transformação social também se faz presente nas experiências do pré-vestibular popular do MEP-VR. A educação popular reafirma-se, nesse contexto, como prática capaz de aproximar conhecimento, território e participação social, ampliando possibilidades de acesso ao ensino superior e reconhecendo os sujeitos como protagonistas de seus próprios processos formativos.

Parte significativa desta edição dedica-se ainda à relação entre universidade e escola, especialmente por meio das experiências desenvolvidas no âmbito do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência – PIBID. Os estudos envolvendo o ensino de História, a formação de professores de Língua Portuguesa e a utilização de metodologias ativas revelam a potência dessa aproximação. Ao inserir licenciandos no cotidiano da educação básica e promover experiências de investigação e intervenção pedagógica, o programa contribui para superar uma histórica dissociação entre formação acadêmica e realidade escolar.

Essa discussão ganha outra perspectiva no trabalho dedicado aos multiletramentos, às tecnologias digitais e ao protagonismo discente no ensino de gêneros jornalísticos. Em um ambiente social marcado pela circulação acelerada de informações e pela multiplicidade de linguagens, educar pressupõe formar sujeitos capazes não apenas de consumir conteúdos, mas de interpretá-los criticamente, produzir sentidos e posicionar-se de maneira responsável diante das diferentes formas de comunicação.

A formação, portanto, emerge nesta edição como processo que não se encerra na transmissão do conhecimento. Ela envolve permanência, participação, autonomia, leitura crítica da realidade e capacidade de intervenção.

Essa mesma perspectiva de cuidado integral e compreensão do sujeito encontra expressão nos estudos voltados à saúde e à funcionalidade humana.

O artigo “Presbifagia e Fonoaudiologia: alterações fisiológicas e complicações associadas: uma revisão integrativa” insere na edição uma discussão de especial relevância diante das transformações demográficas contemporâneas. O envelhecimento populacional amplia a necessidade de compreender alterações fisiológicas que podem repercutir diretamente sobre autonomia, alimentação, segurança e qualidade de vida da pessoa idosa. Ao sistematizar conhecimentos relacionados à presbifagia, o estudo evidencia a importância da atuação fonoaudiológica no reconhecimento dessas alterações e na construção de estratégias de prevenção, avaliação e acompanhamento.

A temática do cuidado também está presente no artigo “Revisão narrativa de literatura sobre anquiloglossia e suas perspectivas clínicas”, que aborda uma condição cujas repercussões podem alcançar diferentes aspectos da funcionalidade oral. A análise das perspectivas clínicas relacionadas à anquiloglossia contribui para qualificar um debate que demanda atenção às interfaces entre avaliação anatômica, manifestação funcional e tomada de decisão clínica.

Ainda que abordem condições distintas e diferentes momentos do ciclo vital, os dois trabalhos compartilham uma compreensão fundamental: alterações relacionadas às funções humanas não devem ser analisadas exclusivamente por sua dimensão biológica. Alimentação, comunicação, autonomia, desenvolvimento e qualidade de vida constituem fenômenos interdependentes, exigindo abordagens que reconheçam o sujeito em sua integralidade.

Essa perspectiva encontra interessante correspondência nos estudos que compõem o eixo Arquitetura, Engenharia e Tecnologias, no qual o espaço construído é compreendido não apenas como objeto técnico ou estético, mas como elemento que participa diretamente das condições de existência, proteção, convivência e autonomia das pessoas.

A proposta da Casa Ponte – Habitação Assistida de Autonomia Progressiva revela uma arquitetura orientada pela construção de independência e pelo reconhecimento das diferentes necessidades humanas. O projeto demonstra como a organização espacial pode assumir função social ao contribuir para processos graduais de autonomia e integração.

Também orientado por demandas sociais concretas, o Centro de Atividades Integrado a um Abrigo para Enchentes estabelece uma aproximação entre planejamento urbano, arquitetura e capacidade de resposta aos eventos climáticos extremos. Em uma realidade na qual enchentes, deslizamentos e outros desastres ambientais afetam de maneira recorrente diferentes territórios brasileiros, pensar equipamentos capazes de articular proteção emergencial e utilização comunitária constitui importante exercício de resiliência urbana.

A relação entre ambiente, cuidado e envelhecimento aparece novamente na proposta do Centro de Pesquisa, Prevenção e Assistência a Idosos com Demência Alecrim de Aço. Nesse trabalho, a arquitetura aproxima-se diretamente das demandas assistenciais e demonstra como os espaços podem ser planejados a partir das necessidades específicas de seus usuários, articulando segurança, acolhimento, funcionalidade e qualidade de vida.

Por sua vez, os projetos do Parque Ecológico Santa Cecília – Núcleo Integrado de Ciência e Biodiversidade em Volta Redonda e do Parque Urbano de Barra do Piraí recolocam no centro da reflexão a relação entre cidade, natureza e cidadania. Parques urbanos e equipamentos ambientais assumem, nessa perspectiva, funções que ultrapassam o lazer: constituem espaços de educação ambiental, conservação, convivência, produção de conhecimento e fortalecimento do pertencimento ao território.

Os artigos reunidos na seção Tópicos Especiais Multidisciplinares acrescentam uma dimensão crítica indispensável à edição ao evidenciarem que compreender o presente implica também interrogar as estruturas históricas, políticas, jurídicas e sociais que o constituíram.

O trabalho dedicado à necropolítica e à responsabilidade do Estado diante da morte de crianças e adolescentes negros no Brasil confronta uma das faces mais graves das desigualdades sociais brasileiras e convoca a reflexão acadêmica sobre violência, cidadania, proteção estatal e os diferentes modos pelos quais determinadas populações permanecem mais expostas à vulnerabilidade e à morte.

A investigação histórica sobre o tráfico de escravizados e a elite cafeeira no Médio Vale do Paraíba, entre 1826 e 1850, recupera elementos essenciais para a compreensão da formação econômica e social de uma região cuja trajetória está profundamente associada à expansão cafeeira e ao trabalho escravizado. A pesquisa histórica, nesse sentido, ultrapassa a reconstrução do passado: ela oferece instrumentos para compreender permanências, desigualdades e relações de poder que continuam a produzir efeitos sobre o presente.

No campo jurídico, a discussão sobre direitos indisponíveis e flexibilidade normativa na Reforma Trabalhista e o estudo acerca da eficácia das políticas de cotas raciais no ensino superior situam o Direito como espaço permanente de tensão entre normas, interesses, proteção social e efetivação de direitos. São investigações que aproximam a produção jurídica dos grandes debates contemporâneos sobre igualdade, cidadania e justiça social.

O mundo do trabalho, por sua vez, é analisado a partir das perspectivas de profissionais de Recursos Humanos sobre treinamento e desenvolvimento de trabalhadores com 55 anos ou mais. Em uma sociedade marcada pelo aumento da longevidade e pela transformação das trajetórias profissionais, o estudo coloca em discussão o etarismo, a aprendizagem ao longo da vida e a necessidade de políticas organizacionais capazes de reconhecer e desenvolver competências em diferentes etapas da carreira.

Ao observarmos esta edição em seu conjunto, emerge uma característica particularmente expressiva: embora partam de objetos de pesquisa distintos, os trabalhos convergem para a análise das condições que favorecem ou limitam a participação dos indivíduos na sociedade.

Permanecer na escola e na universidade; formar professores capazes de dialogar com novos contextos; ampliar o acesso à educação; garantir direitos; enfrentar desigualdades históricas; valorizar trabalhadores em diferentes etapas da vida; compreender processos relacionados à saúde e ao envelhecimento; projetar ambientes mais seguros, inclusivos e sustentáveis. Cada uma dessas questões, à sua maneira, remete à construção de condições para uma existência social mais digna, autônoma e participativa.

É nesse ponto que a interdisciplinaridade deixa de ser apenas característica editorial e passa a constituir uma posição diante do conhecimento.

A ciência contemporânea é chamada a estabelecer conexões. Entre universidade e escola. Entre saúde e qualidade de vida. Entre arquitetura e cuidado. Entre memória e território. Entre Direito e justiça social. Entre conhecimento científico e necessidades concretas da população.

A Revista Episteme Transversalis reafirma, com este volume, seu compromisso de constituir-se como espaço para essas aproximações.

Ao acolher pesquisas oriundas de diferentes campos do saber, etapas de formação e contextos institucionais, o periódico fortalece seu papel como ambiente de interlocução acadêmica e de circulação qualificada do conhecimento. Mais do que ampliar o número de publicações, interessa-nos contribuir para a formação de uma cultura científica sustentada pelo rigor metodológico, pela integridade acadêmica, pelo diálogo interdisciplinar e pela responsabilidade social.

Convidamos, portanto, nossos leitores a percorrerem os trabalhos que integram esta edição não apenas a partir das particularidades de cada área, mas também procurando reconhecer as conexões que se estabelecem entre eles. É justamente nesse encontro entre diferentes perspectivas que reside uma das mais fecundas possibilidades da ciência: ampliar nossa capacidade de compreender o mundo e, a partir dessa compreensão, produzir caminhos para transformá-lo.

Desejamos a todos uma excelente leitura.

Profª Dra. Elisa Ferreira Silva de Alcântara
Editora-Chefe

Pubblicato: 2026-08-30

Educação e Sociedade

Arquitetura, Engenharia e Tecnologias

Tópicos Especiais Multidisciplinares